Se eu pudesse te proteger, voltava àquele dia, te salvava daquelas garras. Mas, menininha, não posso; você já se machucou: desculpa. Se eu pudesse ser deus e mudar o teu destino, o desolador findar daquilo, eu juro por ele e o mar que te tirava à força daquela casa, daqueles braços, daquela cilada. Menininha, ninguém te machucava. E como dói em mim não ter feito algo. Queria eu mesma ter te contado sobre o mundo, a vida, as pessoas, a maldade. Deveria eu ter te falado sobre ele para que não o confiasse a sua ingenuidade, para que não pusesse os pés, boca, as mãos nas mãos, boca e pés dele. Eu sinto muito que assim não fiz, menininha. Choro contigo, criança. Se eu pudesse, eu juro: mudava o disco que tocou no dia fatídico, a tua terra natal, a tua data de nascimento. Eu faria o que tivesse ao meu alcance, se pudesse. Eu te levava pra casa, dali, sã e salva. Mas eu não posso/não pude e isso me dói eternamente. Aconteceu. Ele te tocou; ele te despedaçou, menininha. E você, atada pela impunidade, não pôde fazer nada. Agora você é índice de uma violência.
Ai se eu pudesse, se eu soubesse e se não fosse eu a menininha naquele dia... Eu teria te salvado. Eu teria nos salvado. Eu queria ter acordado a gente em tempo de ser somente um sonho ruim, mas não acordei.

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